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Sim, sinhô!

Pouco mais de cem anos atrás, o país mudava um capítulo tenebroso de sua história: o final da escravidão, em 1888. Em geral, a escravidão é lembrada como aquela parte da história do país que se aprende na escola, distante da realidade atual, como algo que aconteceu lá atrás, um dia.

Mas, há muitas consequências dela ainda hoje e que permeiam o posicionamento de profissionais dentro dos escritórios, consultórios e qualquer outro tipo de espaço de trabalho, independentemente, ironicamente, da cor, raça, idade ou opção sexual do profissional.

Imagine-se no cenário do Brasil de 1850, por aí. O que existia naquela época como trabalho? Além dos engenhos, alguns comércios aqui e ali e o início de algumas fábricas. As cidades eram menores, então, havia maior concentração de poder sobre as terras. Os coronéis do café ou qualquer outro produto que pudesse cultivar naquela terra, onde tudo o que se plantava se colhia, ditavam a vida dentro dos engenhos, como verdadeiros feudos, e também fora dela. Mandavam o padre rezar a missa pra aquela parente doente, por exemplo, quando conviesse.

Com tamanho poder, sua atuação dentro das fazendas era sem qualquer critério de avaliação sobre a palavra trabalho. E aí, não é preciso dizer nem lembrar que a crueldade imposta aos escravos podia ser comparada a outras atrocidades mundiais, como sofridas pelos judeus (protagonistas de cenas de terror na história).

E é nesse “cenário” de exploração que a força do trabalho criou hábitos terríveis como herança para os brasileiros. E, boa parte delas pode ser percebida expressa na comunicação diária.

Sim, sinhô, por exemplo. O que o escravo faz quando precisa concordar com o patrãozinho? Concorda, apenas. Sim, senhor, é uma ironia dita com educação por muitos trabalhadores que, na verdade, até teriam argumentos para discordar de seus superiores. Ah, mas, como diz a palavra, se são superiores é porque têm mais capacidade para realizar tal função. É verdade! No entanto, não quer dizer que os superiores não devam permitir que outras ideias sejam compartilhadas para o “bem” da corporação. Certo? Esse posicionamento do “eu mando e você obedece” foi praticada durante tanto tempo na história do país que virou realidade fora dos engenhos, traduzida em outra época por “manda quem pode e obedece quem tem juízo”, outro ditado muito falado do meio corporativo.

Por que, senão, o que pode ocorrer? Vai para o tronco! Outra analogia muito forte dentro das empresas, importada da época da escravidão. Ninguém quer apanhar em público, ser humilhado, ridicularizado ainda que tenha errado. Por que, em pleno século XXI é necessário a humilhação? Se não está satisfeito com um funcionário, não é melhor conversar com ele em vez de expô-lo ao castigo, como faziam os patrõezinhos? E quando a humilhação ocorre, muitos ficam quietos, porque há um medo explícito de enfrentar conflitos dentro das empresas, outra herança da escravidão.

E essa herança, motivada pelo medo, resulta em outro problema, que é a dificuldade de fazer algo além do que é pedido. E aí, o trabalhador tende a ficar pedindo “licença” para explicar suas ideias, compartilhar dúvidas ou até ousar em projetos. Mas, no engenho, ninguém falava, certo? Apenas obedecia. Alguns profissionais da atualidade criam uma dependência tão grande da aprovação do chefe que chegam a confundi-lo como um senhor de engenho mesmo. E é um problema quando o medo impera entre os funcionários, porque a força criativa fica comprometida, bem como o engajamento, a satisfação e o desejo de que a empresa cresça.

Os chefes mais autoritários devem se lembrar que, assim como ocorria mais de um século atrás, os escravos não desejavam “o bem” de uma fazenda. Pelo contrário. O sonho de muitos era fugir! Então, por que seria diferente no mundo corporativo de hoje?

O problema é que muitos nem conhecem os seus “escravos” (apesar de forte, a palavra aqui é empregada apenas como força de expressão.)1. Com certeza, você já ouviu alguém falar assim em alguma empresa: ah, “aqui é a senzala, não a casa grande!” Ou “ninguém vem aqui na senzala”. Veja como muitos colaboradores se sentem “por fora” do que ocorre em seu trabalho, verbalizando o sentimento de exclusão, como já existia mais de um século atrás.

O que ocorre é que se o medo continuar sendo alimentado e verbalizado dentro das empresas, chegará um momento em que os trabalhadores se rebelarão e, por um desejo de um pouco mais de liberdade, procurarão outros locais mais dignos de trabalho, onde sua força criativa, sua palavra e seu desejo de inclusão sejam levados em conta. Porque, afinal, não é preciso apenas garantir, ao ser humano, direitos trabalhistas. Mas, permitir, que ele se sinta, de fato, humano e entendido como igual. E, quem sabe assim, a exclusão e sujeira causadas pela escravidão seja, de vez, uma página virada no tenebroso capítulo da história de nosso país.

Será que isso já não está acontecendo?

1 A palavra “escravos” foi empregada de maneira metafórica. No entanto, há ainda muito trabalho escravo sim, no mundo e no país. Observe como tem-se falado do trabalho escravo dentro das empresas de confecção, por exemplo. Ainda que o modelo de escravidão tenha mudado.

Sobre o autor

Alloyse

Alloyse Boberg

Alloyse Boberg é consultora em comunicação e foi jornalista durante quase 15 anos. Atuou como Editora Chefe e Executiva da RICTV, afiliada da Rede Record no Paraná. Mestre em Linguística, realiza treinamentos com foco no aprimoramento da comunicação pessoal e profissional, um dos temas que abordou na sua coluna da Rádio Bandnews e em artigos veiculados em meios impressos e eletrônicos de todo o país. Diretora da DNA Comunicativo e criadora do blog A Comunicação como ferramenta.

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