Início » Comunicação Interna » “Ressignificando” a comunicação interna nas organizações
Comunicação Interna

“Ressignificando” a comunicação interna nas organizações

Ressignificando a comunicação interna nas organizações

Você, assim como eu, tem a sensação de que as pessoas estão cada vez mais doentes nas empresas? Como responsável pela comunicação interna nas organizações, você também se questiona do porquê das “fórmulas” não surtirem mais resultado? Você se pergunta porque, a cada nova ferramenta tecnológica desenvolvida para diminuir esse gap de comunicação, os empregados parecem cada vez menos entenderem o que a organização (e os próprios colegas) quer(em)? Bem, se você tem pensado sobre tudo isso, talvez esse texto possa ajudar a compreender a necessidade de ressignificar a comunicação interna que praticamos até então.

Para começar, precisamos aceitar que essas sensações são fatos. Segundo os números do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª região, em 2016, foram registrados mais de 75 mil afastamentos no trabalho com o diagnóstico de alguma doença mental, colocando esta razão como o segundo maior motivo de afastamentos no Brasil. E esse cenário só tende a crescer.

Segundo estudo divulgado pela ONU em 2017, a depressão será a doença mais incapacitante do mundo, já em 2020. Sobre a comunicação como sendo o principal desafio nos ambientes organizacionais, o resultados da mais recente pesquisa de Tendências da Comunicação Interna, elaborada pela SocialBase e Ação Integrada, já nos apontam essa constatação.

[cta_ebook image=”https://culturacolaborativa.socialbase.com.br/wp-content/uploads/2019/01/e-books-cover-pesquisa-tendencia-2019.png” title=”Pesquisa Tendências da Comunicação Interna 2019″ link=”https://mautic.socialbase.com.br/pesquisa-de-tendencias-de-comunicacao-interna-2019″ color=”#6b58cd” cta=”Baixe gratuitamente”]Acesse agora o relatório da pesquisa de mapeou os principais dados e insights da área de comunicação para 2019.[/cta_ebook]

As empresas estão doentes, e a comunicação interna nas organizações?

Essas duas reflexões (e constatações) nos convidam a ampliarmos nossa visão sobre nossas práticas, para que seja possível encontrarmos alternativas que nos façam compreender que organização-indivíduos-sociedade estão associados uns aos outros. Quando nos permitimos esse movimento, percebemos que a comunicação no contexto interno das organizações tem uma importância muito maior do que “alinhar estratégias organizacionais”.

Desde a década de 1950 as doenças nos ambientes de trabalho já são estudadas por especialistas. Segundo o francês Christophe Dejours, a organização do trabalho exerce não apenas uma exploração sobre o corpo do funcionário, mas antes, uma neutralização das suas condições mentais. Por outro lado, Vincent de Gaulejac já nos alertava que a exclusão de uma pessoa dos grupos de trabalho (por vezes resultado de uma não-adaptação de um empregado às novas estratégias da empresa), gera um sentimento de incapacidade, que resulta num adoecimento mental. E, mais recentemente, Byung-Chul Han nos mostra que, numa sociedade em que a exploração do corpo já encontra suas limitações, a tendência é a auto exploração da psique, quando somos levados a crer que tudo podemos. E é neste empoderamento que é identificado um esgotamento do ser. Para Han, essa quantidade de opções que temos ao nosso alcance nos dias de hoje contribui para o enfraquecimento de vínculos entre as pessoas.

E é nesse enfraquecimento das relações que a formação da nossa identidade é afetada, visto que a sua formação se dá a partir da relação com o outro – essencialmente o diferente. Considerando que organizações são formadas por pessoas e para pessoas, pensar alteridade nas empresas significa aceitar que as pessoas são diferentes, possuem necessidades e desejos diferentes, mas compartilham em comum da necessidade de reconhecimento perante o outro e de suas necessidades básicas atendidas. Isto é, o outro diferente não é a organização, mas o colega do lado, que está (ou deveria estar) trabalhando de forma cooperativa, sendo reconhecido pela sua contribuição de forma sincera e respeitosa, não com a tensão constante de errar, quando lhe é pedido para inovar. Com essa visão entendemos, como um desafio da comunicação interna nas organizações, menos “cascatear informações”, visando uma homogeneização de pensamentos e ações, e mais criar espaços onde as pessoas possam “cocriar”, respeitando as diferenças.

Informar X Comunicar

É este o ponto para que a Comunicação Interna nas organizações comece a ser ressignificada. Não mais como uma área que se responsabiliza pelo compartilhamento de informações, mas como uma cultura descentralizada de relacionamento. Dominique Wolton ajuda a compreender a diferença entre informar e comunicar: “a comunicação é sempre um processo mais complexo que a informação, pois se trata de um encontro com um retorno e, portanto, um risco”. Este entendimento é fundamental para a mudança do nosso mindset enquanto profissionais de Comunicação Interna nas organizações. Fazer a gestão de canais de informação é importante para nosso dia a dia, mas precisamos ir além dessa atribuição, pois nossas percepções (e pesquisas) mostram que apenas os canais não estão surtindo o efeito desejado.

Algumas alternativas passam por pensar que o “interno” não tem mais sentido nos dias atuais. Desenvolver espaços e tempo para apreciação e diálogo, para que as pessoas possam se reconhecer sujeitos capazes de cooperarem com base nas suas diferenças, contribui para uma maior compreensão de nós mesmos (formação identitária); e olhar o gestor enquanto um sujeito, não como um canal.

E as lideranças?

Cabe um alerta que, desde 2017 até a última edição, a pesquisa Tendências da Comunicação Interna nos revela: na busca por novas alternativas de aperfeiçoar o trabalho, as lideranças e gestores diretos [e em terceiro aparecem os colegas multiplicadores] estão no topo das atenções dos CEOs e executivos das empresas, mas considerados como canais de informação, não enquanto pessoas.

Ser gestor acarreta um status (nem sempre financeiro) que vem acompanhado de um isolamento e de uma competição velada: de um lado, a pressão do alto escalão por resultados, de outro, suas equipes mendigando condições de trabalho e reconhecimento. Não é à toa que engajar as lideranças como comunicadores seja o maior desafio da comunicação interna, segundo a edição 2019 da pesquisa.

[cta_inline icon=”https://culturacolaborativa.socialbase.com.br/wp-content/uploads/2018/12/leadership-v2.png” link=”https://culturacolaborativa.socialbase.com.br/liderancas-na-comunicacao-interna-uma-questao-de-estrategia/” cta=”Saiba mais” color=”#6b58cd”]Lideranças na Comunicação Interna: uma questão de estratégia[/cta_inline]

Um caminho a seguir?

Se você chegou até aqui esperando uma nova fórmula ou uma lista de 10 passos para uma comunicação interna eficaz, o que temos a compartilhar é uma reflexão: enquanto considerarmos as empresas como máquinas e as pessoas engrenagens, continuaremos orgulhosos de campanhas de comunicação interna nas organizações que reforçam os paradoxos entre discurso e prática, mas os ambientes empresariais continuarão doentios. Vamos exercitar pensar a empresa como um organismo vivo, que é formado por pessoas e para pessoas, suas diferenças e complexidades.